Viagem

Da plataforma do meu trem vejo as coisas passarem.

Passou uma casa correndo, atrás dela passou um quintal e uma dona gorda com um filho no colo e trouxa na cabeça.

Passou um rebanho de vacas mastigando tristemente, sem ter outras coisas que fazer.

Passou um urubu voando assustado a procura da roubada solidão.

Passou depois uma flor e braço dado com outra flor, dançando, dançando, dançando...

Os bambus , as palmeiras, o capim, o arroio seco passou também correndo, cantando, cantando com o vento.

Um rio quis seguir a gente mas não pode mais e sumiu atrás de monte.

Passou uma nuvem correndo por cima dos pinheiras.

Passou a fumaça preta salpicada de fogo.

A fumaça era carvão e virou nuvem e o fogo então correu também para virar estrela.

Só eu fiquei parada na plataforma a espiar tudo.

Chegou o chefe do trem, disse que eu não podia ficar ali e sumiu também.

Passou a estação pequenina com um homem de uniforme e bandeira verde acenando sem parar.

Eu chamei minha amiga para perto.

E, então, ficamos vendo as coisas passarem.

Maria Clara Machado

sharom/°